Argentina 1 x 1 Bolivia. Copa America 2011. Análise tática

Argentina e Bolívia empataram em 1 a 1 — no estádio Ciudad de la Plata, em La Plata na Argentina — pela fase de grupos da Copa América 2011. O esquema tático da Argentina foi o 4-3-3. O esquema tático da Bolívia foi o 4-4-2 em linha.

Argentina



A Argentina jogou no 4-3-3 e dominou a partida. E, embora tenha finalizado bastante a gol, não levou tanto perigo à meta boliviana quanto os números podem dar a entender. Segundo os números do Tempo Real da ESPN, a Argentina teve 65% de posse de bola e finalizou 19 vezes (8 certas e 11 erradas). O golaço de Aguero evitou que o time saísse derrotado de um jogo em que a Argentina impôs seu jogo, saiu atrás no placar, mas apresentou um defeito que já vem de muitos anos: falta de objetividade.

O time gosta de jogar no ataque, pressionando o time adversário no campo de defesa, e trocar muitos passes. Foram 490 passes (457 certos). Números de Barcelona? Nem tanto. Na final contra o Manchester United na Champions League 2010-2011, o Barcelona trocou 772 passes (667 corretos), chutou 19 vezes a gol (12 no gol) e teve uma posse de bola de 63%. Não só o estilo de jogo é parecido, mas também a disposição tática.

A defesa argentina é uma linha de quatro em que os laterais cumprem um papel mais defensivo. Rojo tem mais liberdade pela esquerda que Zanetti pela direita, mas ainda assim o apoio é tímido. O miolo defensivo é fraco. Gabriel Milito e Burdisso são ruins na bola aérea e no desarme por baixo. Não é por um acaso que ambos são reservas em suas equipes. Os problemas não ficam apenas na defesa.

O meio-campo tem Mascherano como primeiro-volante, quase um terceiro defensor pelo centro. Recentemente no Barcelona, Mascherano mostrou-se melhor como defensor que como volante. Jogador superestimado, Mascherano faz muitas faltas e tem passe ruim. Os volantes pelos lados (Banega e Cambiasso) não fazem bem o papel de meias/volantes (os volantes box-to-box, como são chamados na Europa). Não sabem armar nem carregam bem a bola. O papel de primeiro-volante lhes cai melhor.

A Argentina joga com três atacantes e Messi joga como no Barcelona: centralizado e mais recuado. Lavezzi e Tevez jogam pelos lados do campo. E aí reside outro problema já antigo na seleção argentina. Tevez e Lavezzi insistem muito em jogadas pelo meio. Ou seja, não buscam a linha de fundo, preferindo as incursões em diagonal pelo centro. É bom atentar para o fato de que cruzamentos na área também seriam pouco efetivos, já que o time não dispõe de um centroavante típico de área. Além disso, nesse jogo especificamente, Messi não jogou bem e estava excessivamente irritado.

Bolívia



A Bolívia atuou no 4-4-2 com o meio-campo em linha. A seleção boliviana foi inferior à argentina durante todo o jogo, mas encontrou alguns )poucos) espaços nas costas de Banega e Cambiasso. Como a defesa argentina jogava ora distante do meio-campo, ora muito adiantada, os atacantes Edivaldo Rojo e Marcelo Moreno foram os jogadores que tiveram algum espaço para criar jogadas. Mas ambos estiveram mal. Marcelo Moreno desperdiçou um contra-ataque em que saiu cara-a-cara com o goleiro Romero quando a Bolívia ganhava de 1 a 0.

A defesa e o meio-campo bolivianos não conseguiram evitar o toque de bola argentino, mas conseguiram impedir que a Argentina chegasse muitas vezes com perigo ao gol de Arias. A Bolívia trocou apenas 154 passes (45 errados) durante o jogo, abusou das bolas longas para o ataque (70 lançamentos, sendo 50 errados) e das faltas (27 contra 16 da Argentina), teve apenas dois escanteios e finalizou 8 vezes (5 certas). O único quesito em que foi melhor que a Argentina, reflexo da menor posse de bola, foi no número de bolas roubadas: 42 desarmes (38 certos) contra 21 da Argentina (16 certos). Os números são do Tempo Real da ESPN.

A defesa foi formada por Álvarez na lateral direita, Raldes e Rivero no miolo defensivo, e Gutiérrez na lateral esquerda. Não comprometeram e barraram as incursões pelo meio de Messi, Tevez e Lavezzi. Os laterais não atacaram.

O meio-de-campo teve Vaca como meia pela direita, Robles e Flores centralizados e Campos pela esquerda. Vaca e Campos deveriam ser os meias responsáveis por alimentar o ataque e também chegar à frente. Pouco fizeram. Campos cobrou o escanteio para o gol de Edivaldo no primeiro pau.

No ataque, Marcelo Moreno e Edivaldo Rojas jogaram paralelamente. Edivaldo voltava um pouco mais para marcar e ambos tentavam atrapalhar a saída de bola argentina. Principal nome da seleção boliviana, Marcelo Moreno esteve abaixo de sua média e Edivaldo teve uma atuação melhor.


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Sobre Esquemas Táticos

Marcelo Costa, jornalista e mestre em Sociologia. Editor do site Esquemas Táticos e do Esquemas Clássicos (www.esquemasclassicos.blogspot.com).
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3 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

Marcelo,

Ainda que Messi jogue assim no Barcelona, lá existe a figura de Villa, que se não joga necessariamente centralizado, faz bem a função de cortar em diagonal da esquerda para o centro, se posicionando à frente do argentino. Acho que o esquema não fez muito sentido, Tevez - inconstante - e Lavezzi - sumido - ficaram abertos pelas pontas enquanto havia um claro buraco no comando de ataque. Ainda que houvesse uma tentativa de fazer Banega e Cambiasso serem meias/volantes, o primeiro avançava mais como um armador, enquanto o segundo ficava mais ao lado de Mascherano - e creio que a dupla de marcadores da Argentina foi bem, evitando coisa pior.

Seja como for, para além das dificuldades técnicas todas da defesa, esse empate com a Bolívia não se justifica. O time estava muito confuso do meio para frente, acho um tanto mais lógico que Batista, que tem lá sua síndrome de Professor Pardal, seja mais simples e escale Di Maria no lugar de Banega - que até falhou no gol - e ponha Aguero mais centralizado no ataque, dando mais liberdade para Messi - quem sabe partindo da ponta-direita para a flutuação. Mas ainda falta muito para esse time argentino, fosse um adversário melhorzinho - um Chile ou uma Colômbia - e ele teria perdido de cara, em casa.

abraços

Esquemas táticos disse...

Grande Hugo!

Também acho o empate não se justifica. A Argentina corre muito, mas é confusa, como você disse. E mais: os atacantes do Barcelona são mais versáteis. Villa e Pedro alternam entradas em diagonal pelo centro e jogadas de linha de fundo. Na Argentina não existem jogadas de linha de fundo. Fica tudo misturado ali no meio.

Abraços.

Anônimo disse...

Aí eu tenho que discordar de você. A Argentina não jogou no 4-3-3 e sim num 3-5-2. Masquerano jogou como zagueiro e o Messi como meia-armador, executando função completamente diferente da que faz no Barcelona e justamente por isso não rendeu.

O jogo de anteontem mostra que você tambem errou em classificar o Lavessi como jogador que jogou apenas pelo centro. Ele jogou as duas primeiras partidas mais pela ponta direita mesmo, pegando a bola e correndo não em direção ao gol em diagonal, mas tentando fazer cruzamentos. Não deu certo pela falta de qualidade tecnica dele.

Quando anteontem o Messi teve o Aguero e o Di Maria mais proximos dele, não como pontas constantemente, mas varias vezes se aproximando, assim como o Iguaim, as coisas se tornaram muito mais faceis para Messi. Ali sim foi um 4-3-3, com o Messi de meia e o Masquerano finalmente como volante, avançando bem mais.

Se tornou nitido tambem que o 3-5-2 da primeira partida não tinha como dar certo com dois atacantes distantes da area.

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